Mostrando postagens com marcador Adolescência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adolescência. Mostrar todas as postagens

Winnicott e a adolescência


"Se você fizer tudo o que pode para promover o crescimento pessoal de seus filhos, vai ter de ser capaz de lidar com resultados incríveis. Se seus filhos acabarem se encontrando, não vão se contentar senão em se encontrar em sua totalidade, e isso vai incluir a agressão e os elementos destrutivos em si próprios, assim como os elementos que podem ser rotulados como amor. Vai ser uma longa luta que vocês terão que enfrentar. [...] É claro que meninos e meninas podem dar um jeito de atravessar essa fase, por meio de uma série de acordos com os pais, sem necessariamente manifestar rebelião em casa. No entanto, é prudente lembrar que a rebelião pertence à liberdade que vocês deram aos seus filhos, quando os criaram de modo a que eles existissem por si próprios. Poder-se-ia dizer, em alguns momentos: Você semeou um bebê e colheu uma bomba. [...] Os pais não podem fazer muita coisa; o melhor que têm a fazer é sobreviver, sobreviver intactos, sem mudar de cor, sem negar qualquer princípio importante".

In: Winnicott, D.W. 1969a, p. 124

III Colóquio Winnicott em Belo Horizonte

Para psicólogos e cuidadores de plantão, um evento interessante que acontecerá em BH no próximo final de semana. 




Partindo das contribuições de Winnicott haverão discussões muito interessantes sobre a delinquência, suas origens e tratamento. Essa é uma boa oportunidade para aqueles que se interessam pelo pensamento de Winnicott ou para aqueles curiosos em conhecer esse teórico. Este ano participarei das Comunicações apresentando o artigo O manejo na Clínica Winnicottiana: discussões a partir de um caso clínico de um adolescente.

Interessados em se inscrever cliquem aqui.
O manejo na clínica winnicottiana: discussões a partir do caso clínico de um adolescente  

O pensamento winnicottiano se destaca por sua originalidade em diversos aspectos. Um dos pontos centrais de seu pensamento diz respeito a formulação de sua teoria do amadurecimento humano e sua compreensão do adoecimento psíquico. Para Winnicott o distúrbio psíquico é resultado de uma interrupção no processo de amadurecimento, em decorrência de uma falha na provisão ambiental. Essa compreensão de Winnicott produz efeitos sobre a prática clínica especialmente no que se refere ao manejo clínico.

A prática clínica sob orientação winnicottiana tem por objetivo disponibilizar ao cliente um ambiente cuja confiabilidade possa lhe proporcionar a retomada de seu processo de amadurecimento pessoal. Winnicott compreende o ambiente na totalidade de cuidados que são oferecidos em função do processo maturacional próprio e específico de cada paciente. São esses aspectos que orientarão o manejo clínico.

Nesse sentido, não é possível, partindo das contribuições de Winnicott, formular um enunciado geral que defina um método ou uma técnica para o trabalho clínico. Não podemos falar em uma única técnica já que o manejo clínico se orienta e se organiza conforme a natureza do distúrbio que o paciente apresenta.

Ao propor um manejo atento e sintonizado às necessidades para o amadurecimento do paciente, Winnicott nos gabarita a oferecer um atendimento clínico menos comprometido com uma técnica fixa e rígida e mais flexível e adaptado às particularidades de cada cliente.

Considerando essas contribuições, este artigo apresenta, a partir do atendimento clínico de um adolescente, uma discussão sobre o manejo clínico winnicottiano. Neste relato de caso, observarmos que o apoio na teoria winnicottiana possibilitou um atendimento que fosse muito além da interpretação verbal, levando em consideração tanto as características próprias do paciente em seu momento do amadurecimento – a adolescência – como também as falhas ambientais vividas por ele em etapas anteriores.

Palavras-chave: Clínica winnicottiana, Manejo, Adolescência.

Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com

A passagem

A Passagem pela adolescência não é nada fácil para os pais, mas se engana quem acha que as coisas são fáceis para os adolescentes



"Filho criado, trabalho redobrado." Esse conhecido ditado popular ganha sentido quando chega a adolescência. Nessa fase, o filho já não precisa dos cuidados que os pais dedicam à criança, tão dependente. Mas, por outro lado, o que ele ganha de liberdade para viver a própria vida resulta em diversas e sérias preocupações aos pais. Temos a tendência a considerar a adolescência mais problemática para os pais do que para os filhos. É que, como eles já gozam de liberdade para sair, festejar e comemorar sempre que possível com colegas e amigos de mesma idade e estão sempre prontos a isso, parece que a vida deles é uma eterna festa. Mas vamos com calma porque não é bem assim.

Se a vida com os filhos adolescentes, que alguns teimam em considerar um fato aborrecedor, é complexa e delicada, a vida deles também o é. Na verdade, o fenômeno da adolescência, principalmente no mundo contemporâneo, é bem mais complicado de ser vivido pelos próprios jovens do que por seus pais. Vejamos dois motivos importantes.

Em primeiro lugar, deixar de ser criança é se defrontar com inúmeros problemas da vida que, antes, pareciam não existir: eles permaneciam camuflados ou ignorados porque eram da responsabilidade só dos pais. Hoje, esse quadro é mais agudo ainda, já que muitos pais escolheram tutelar integralmente a vida dos filhos por muito mais tempo.

Quando o filho, ainda na infância, enfrenta dissabores na convivência com colegas ou pena para construir relações na escola, quando se afasta das dificuldades que surgem na vida escolar -sua primeira e exclusiva responsabilidade-, quando se envolve em conflitos, comete erros, não dá conta do recado etc., os pais logo se colocam em cena. Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a idéia de que eles não existem por muito mais tempo.

É bom lembrar que a escola -no ciclo fundamental- deveria ser a primeira grande batalha da vida que o filho teria de enfrentar sozinho, apenas com seus recursos, como experiência de aprender a se conhecer, a viver em comunidade e a usar seu potencial com disciplina para dar conta de dar os passos com suas próprias pernas.

Em segundo lugar, o contexto sociocultural globalizado atual, com ideais como consumo, felicidade e juventude eterna, por exemplo, compromete de largada o processo de amadurecimento típico da adolescência, que exige certa dose de solidão para a estruturação de tantas vivências e, principalmente, interlocução. E com quem os adolescentes contam para conversar?

Eles precisam, nessa época de passagem para a vida adulta, de pessoas dispostas a assumir o lugar da maturidade e da experiência com olhar crítico sobre as questões existenciais e da vida em sociedade para estabelecer com eles um diálogo interrogador. Várias pesquisas já mostraram que os jovens dão grande valor aos pais e aos professores em suas vidas. Entretanto, parece que estamos muito mais comprometidos com a juventude do que eles mesmos.

Quem leva a sério questões importantes para eles em temas como política, sexualidade, drogas, ética, depressão e suicídio, vida em família, vida escolar, violência, relações amorosas e fidelidade, racismo, trabalho etc.? Quando digo levar a sério me refiro a considerar o que eles dizem e dialogar com propriedade, e não com moralismo ou com excesso de jovialidade. E, desse mal, padecem muitos pais e professores que com eles convivem.

Os adolescentes não conseguem desfrutar da solidão necessária nessa época da vida, mas parece que se encontram sozinhos na aventura de aprender a se tornarem adultos. Bem que merecem nossa companhia, não?

(Rosely Sayão - 21/02/2008)

Por que os adolescentes têm vergonha dos pais?

A propaganda do novo Space Fox que começou a ser veiculada essa semana traz uma cena  inusitada. Se normalmente vemos os adolescentes se queixando de vergonha dos pais, aqui a coisa se inverte: é o pai quem diz ter motivos de sobra para se envergonhar. Mas afinal de contas: Por que os adolescentes têm tanta vergonha dos pais?



Ter vergonha de atitudes dos pais é algo que todo mundo já sentiu e isso não tem nada demais: é normal que o adolescente queira manter distância dos pais para se desenvolver com autonomia e liberdade. Os pais devem ficar atentos apenas quando isso passa dos limites.

Os pais às vezes subestimam as reclamações e não se lembram mais do que passaram ou se esquecem de seus constrangimentos quando também eram adolescentes. Ao invés de se sentirem ofendidos ou rejeitados é importante que os pais saibam que toda criança e adolescente passa por esse período. 

Esse comportamento é típico nos adolescentes  que vivem um processo de construção de identidade e são, por isso, mais suscetíveis a julgamentos, especialmente na frente de seu grupo.  Os jovens parecem ter mais vergonha é de sua própria fragilidade e dependência, gostariam de parecer mais corajosos, independentes e crescidos do que são, aos olhos dos outros.  

Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais


Vampiros comportados



Mais um texto interessante de Calligaris para quem gosta de pensar no fenômeno da adolescência e suas nuances. Destaque para a ideia da implantação do desejo pelo outro e da contaminação do adolescente pelo desejo e sexualidade adulta.



Os adolescentes de hoje "desejam pequeno" ou será que eles perseguem um ideal de autocontrole?

Nos últimos anos, repetidamente, manifestei certa preocupação com o fato de que os adolescentes de hoje me parecem "desejar pequeno", ou seja, sonhar com projetos muito "razoáveis", se não desanimadores e quase resignados. A adolescência de minha geração, nos anos 1960, era o contrário: sonhávamos com uma grandiosidade ridícula, sem preocuparmo-nos com as condições efetivas de realização de nossos sonhos.

Deu no que deu: alguns efeitos bons, outros péssimos. Por exemplo, não conseguimos fazer "a" revolução, mas transformamos os costumes (para melhor, pelo menos até agora). Por outro lado, nossa paixão revolucionária defendeu e sustentou caricaturas sinistras de nossos ideais sociais -ou seja, nossas aspirações, por serem desmedidas, produziram alguns monstros.

Talvez isso não aconteça (ou aconteça menos) com os adolescentes de hoje; não seria necessariamente uma perda. Um pai, preocupado, como eu, com o "desejar pequeno" do filho, foi direto ao assunto e perguntou ao menino: "Mas quais são seus sonhos para a vida?". A resposta que ele recebeu o levou a me escrever: "É como se ele (o menino) desconfiasse de seus desejos, como se achasse que eles não são bem dele".

De fato, os adolescentes sempre têm certa desconfiança em relação à proveniência de seu querer. Afinal, logo quando eles começam a sonhar com o que poderia ser sua vida adulta, sofrem também uma irrupção de desejos que, no começo, mal entendem.

Claro, a sexualidade já existe na infância, mas, na puberdade, ela chacoalha o corpo de maneira inédita. É compreensível que um adolescente se pergunte o que é aquilo, para que serve e sobretudo de onde vem. Em geral, antes mesmo de ter se acostumado com a transformação de seu corpo, o adolescente constata que os adultos olham para ele de maneira diferente, como se ele fosse um objeto erótico possível. Disso deriva, provavelmente, a suspeita do adolescente de que o desejo que o transforma vem dos outros -dos adultos, que devem ser todos tarados.

Das primeiras reflexões de Freud até George A. Romero ("A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968), esta explicação se popularizou: o desejo vem dos adultos, que avançam babando atrás da gente, querem nos pegar e, se possível, morder e contaminar. Mortos-vivos ou simplesmente artríticos, eles têm mobilidade restrita e pouca fantasia, pois só parecem querer uma coisa: que a gente fique que nem eles.

Pois bem, com a saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer (e sua adaptação cinematográfica), apareceu um novo paradigma da origem do desejo (alimentado, aliás, por séries televisivas, como "True Blood" e "Vampire Diaries"). Eis qual.

O desejo continua vindo dos outros, mas a mordida que contamina é desejada ardentemente pelas "vítimas", enquanto vampiros (e lobisomens) se controlam: embora sejam tão fissurados quanto um morto-vivo à procura de carne, eles resistem e se recusam a morder, enquanto os humanos imploram para serem mordidos.

O novo paradigma, em suma, diz que: 1) o desejo vem dos outros, mas, uma vez que tenhamos sido mordidos (como queremos ser), ele será o nosso, estará na gente, 2) ser vampiro à nossa vez será ótimo e 3) não por isso esqueceremos que desejar é um exercício de autocontrole.

É como se os adolescentes estivessem adotando um ideal em que o desejo seria deles mesmos, fortíssimo e indomável (uma verdadeira fissura), mas heroicamente contido. O vampiro será vegetariano, só se permitirá beber sangue de animais e saberá amar uma humana sem ceder à vontade louca de mordê-la. Da mesma forma, nós, sem recalque, teremos fantasias, sonhos e desejos, sexuais ou outros, poderosíssimos, mas saberemos discipliná-los.

Será que os adolescentes "desejam pequeno" (como eu pensava) ou será que, à diferença de nós quando éramos adolescentes, eles não idealizam o descontrole, mas a disciplina de si?

Se esse for o caso, talvez os adolescentes de hoje devam sua sabedoria à constatação de que, ao sair de cena, nossa geração, que pretendia desejar muito e descontroladamente, não está deixando uma lembrança muito boa.

Só um exemplo: o descontrole do desejo, ultimamente (e não só no Brasil) aparece sobretudo na falta de autocontrole de classes políticas desavergonhadas e vorazes (de votos ou de privilégios).

In: Contardo Calligaris (Folha de São Paulo, quinta-feira, 11 de agosto de 2011)

Pergunte aqui: A mídia influencia?




Os meios de comunicação podem influenciar na precocidade dos jovens?

Os meios de comunicação podem muitas vezes oferecer modelos de comportamento ou práticas que podem influenciar a conduta de adolescentes. Os jovens ainda são muito sensíveis a esses modelos, por isso é importante que os pais ofereçam um espaço para discussão do que é trazido pelos meios de comunicação construindo com os filhos a oportunidade de um diálogo crítico.

Os meios de comunicação trazem uma série de questões que podem se tornar oportunidades para que os pais abordem questões importantes.É importante que os pais aproveitem essas oportunidades para colocar a sua visão de mundo argumentando e explicando para o adolescente, seus valores e crenças.

Discutindo e refletindo sobre a diversidade, o jovem tem mais condições de enfrentá-las: aproveitamos o que a TV nos traz de diverso, de novo, de certo e errado, criando nas famílias o hábito de discutir, pensar sobre o que se vê, o que se ouve e vivencia.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

O paradoxo de Amy Winehouse



VOCÊ PREFERE IMAGINAS SUA FILHA ERRANDO PARA SEMPRE NUM SHOPPING OU PERDIDA NUMA BALADA PERIGOSA?

Stéphanie, minha enteada, tem 11 anos: ainda é menina, mas é já moça. Assim que foi informada da morte de Amy Winehouse, ela veio até minha escrivaninha e, simulando o choro inconsolável de um nenê, perguntou: "Você está sabendo que morreu minha cantora preferida?".

Justamente por ela simular o choro e se esforçar para ser engraçada, pensei que devia estar sofrendo muito. A coisa se confirmou no meio da noite, quando Stéphanie acordou, e, para que reencontrasse o sono, foi preciso que alguém conversasse com ela sobre a vida e a morte de Amy.

Teria gostado de poder oferecer a Stéphanie uma boa explicação pela dureza da vida e da morte de sua cantora preferida -por exemplo, dizer que Amy teve uma infância muito triste, que nada em sua vida adulta pôde compensar; ou, então, que ela teve sorte na vida profissional, mas não no amor, e se perdeu nas drogas e no álcool por desesperos sentimentais. Mas o que sei da infância e dos amores de Amy é só fofoca.

Sem mentir nem inventar, melhor deixar Stéphanie lidar com este enigma: alguém pode ter um extraordinário talento, gostar de exercê-lo, alcançar sucesso e reconhecimento, amar e ser amado por um ou mais parceiros e, mesmo assim, esbarrar num vazio que nada consegue preencher.

Stéphanie também tinha lido sobre a maldição dos 27 anos, que, antes de Amy, teria pego Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain etc. Como é normal na sua idade, ela parecia sensível à "glória" de morrer jovem (ou talvez de não viver até se tornar tão chato quanto os adultos).

Foi fácil desvalorizar a morte precoce mostrando que ela é, justamente, um ideal muito antigo: o rock apenas retomou o lugar comum romântico do poeta que vive tão intensamente que, como Ícaro, queima suas asas e cai antes da hora, em pleno voo. Em suma, eu não tenho nada contra viver intensamente; ao contrário, artista ou não, acho que a gente deve viver da maneira mais intensa que der. Mas resta o seguinte: a ideia de que viver intensamente consistiria, por exemplo, em encher a cara de absinto ou ópio é velha de 200 anos.

Agora, há uma coisa que pensei e que não disse a Stéphanie: no fundo, para mim, a história de Amy tem um valor pedagógico, não só (obviamente) como exemplo dissuasivo ("Olhe o que pode lhe acontecer se você beber ou se drogar"), mas também como exemplo "positivo".

Como assim, positivo???

Concordo, a morte de Amy é um horror e uma estupidez, mas também lembra que viver é uma coisa séria, com apostas e riscos sérios, a começar pelo risco de perder a própria vida antes da hora. Você dirá: "Alguém duvida disso?". Pois é, constato que há um monte de gente tentando convencer nossas crianças de que a vida é feita de gritinhos, compras e namoricos que só servem para trocar trivialidades online com amigos e amigas.

Até a morte de Amy, eu pensava que o cantor preferido de Stéphanie fosse Justin Bieber. Ora, é possível que Bieber seja uma espécie de Dorian Gray (uma cara de porcelana que esconde dramas e anseios humanos), mas o fato é que ele promove uma imagem de bom moço num mundo intoleravelmente cor-de-rosa.

"E daí?", dirão alguns pais, "não seria esse o adolescente ideal com quem deveríamos gostar que nossas filhas saíssem, em sua primeira ida ao cinema sozinhas com um garoto?". E acrescentarão: "Você quer o quê, que sua enteada seja parecida com Justin Bieber ou com Amy Winehouse?".

Claro, é um golpe baixo: ninguém quer que sua filha acabe como Amy. Mas devolvo a pergunta: será que Justin Bieber é mesmo melhor? Stéphanie será mais protegida se ela permanecer numa pré-adolescência à la fã de Justin Bieber. Mas protegida de quê, se não da própria vida? Entre imaginá-la errando para sempre num corredor de shopping e imaginá-la numa balada que pode acabar na sarjeta à la Amy, a escolha não é fácil. E, na comparação, Amy passa a simbolizar minha esperança (e meu receio, indissociavelmente) de que Stéphanie cresça e se torne mulher, com desejos próprios, fortes.

É o paradoxo de Amy: o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos?

(Contardo Calligaris, Folha de São Paulo, 04 de agosto de 2011)

É tempo de Férias mas vale a pena cuidar do sono!



Acordar adolescente não é fácil. Em tempo de férias é impossível. Os adolescentes adoram inverter as regras quando é tempo de férias: ficam acordados até tarde e dormem na hora em que deveriam estar de pé. Mas o que muitos jovens e muitos pais não saber é que as alterações do sono têm consequências sérias para a saúde.

Falta de concentração, irritação, dificuldade cada vez maior para dormir nos horários normais são alguns dos efeitos da troca de horários que os adolescentes fazem. Os médicos dizem que essa inversão também desregula a produção de alguns hormônios.

O hormônio do crescimento e a melatonina são responsáveis pelo desenvolvimento físico e pela organização do sono. Os dois são produzidos no cérebro - em partes diferentes - e só são liberados pelas glândulas a partir do início da madrugada. O pico é por volta de duas, três horas da manhã. Para isso é preciso que a pessoa esteja em sono profundo há pelo menos uma hora.

Se o adolescente está acordado nesse horário, os hormônios não são liberados. Sem a melatonina, o cérebro fica sem a chave que inicia e fecha o sistema do sono. Por isso, dormir de dia não é a mesma coisa que dormir à noite. Estaríamos simplesmente descansando os músculos, mas a eficácia desse sono em termos de recuperação mental, em termos de recuperação da nossa estrutura física e mental não vai é a mesma coisa.

O hábito de trocar o dia pela noite também pode agravar um outro problema que tem aumentado entre os adolescente: quem tem horários errados pra dormir terá, também, horários errados para se alimentar. Com isso, o metabolismo é alterado, podendo até desenvolver uma obesidade.

Mas e aí, o que os pais devem fazer? Negociar e em alguns momentos colocar limites de forma clara e firme. É importante deixar claro que os adolescentes precisam se desligar do mundo virtual, da tecnologia, para crescer mas para isso é importante também oferecer alternativas de lazer e diversão. A luz do dia a vida ao ar livre, não apenas é saudável, mas também nos convida aos exercícios físicos e a uma série de outras atividades lúdicas e muito gostosas de realizar.

Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais
O adolescente como intérprete do desejo do adulto: inversões e proposições acerca da adolescência e passividade


Apesar da adolescência não ser um conceito psicanalítico propriamente dito, isso não impediu que ela fosse alvo de pesquisas e investigações. Dentre as diversas contribuições no campo da Psicanálise, destacamos o potencial frutífero da teoria da sedução generalizada de Jean Laplanche. Ao elaborar a relação complexa entre instinto e pulsão – questão central na teoria e na clínica de adolescentes – Laplanche possibilitou a articulação entre a teoria da sedução e os processos psíquicos próprios à adolescência. A partir disso e tendo essas contribuições como fio condutor, este artigo tem por objetivo discutir a tese de Calligaris sobre a adolescência como “realização do desejo inconsciente do adulto”. Ao apontar a passividade fundamental na constituição psíquica, a teoria da sedução generalizada nos possibilita pensar e refletir sobre os efeitos e características da alteridade também na adolescência.

Palavras Chave: Adolescência; Teoria da Sedução Generalizada; Passividade.

Pergunte aqui: Precocidade, o que fazer?





Como a família deve agir diante de comportamentos precoces de adolescentes?

Os pais estão cientes das mudanças geracionais e que muitas coisas são consideradas comuns hoje, podem não ter sido na época de sua juventude. Ficar atento a essas mudanças é importante para que os pais avaliem aquilo que acham melhor para seus filhos. O mundo muda e precisamos refletir sobre ele, sobre os efeitos das mudanças, os riscos que trazem, mas também as melhorias, avanços e conquistas. 

Conversar com os filhos para entender os novos comportamentos e formas de agir é um caminho interessante que propicia um clima de respeito entre pais e filhos. O adolescente pode apresentar ao pai o novo mundo em que vive, mas cabe ao pai, o adulto responsável, reconhecer a adequação e a coerência de certos comportamentos.

Cada família tem seus próprios limites e valores que devem ficar claros para os adolescentes, mas é interessante que os pais transmitam esses valores não de forma impositiva, autoritária ou violenta, mas pelo contrário oferecendo a possibilidade do diálogo, apresentando aos filhos suas crenças, idéias e percepções.

Assim, os pais devem ficar tranquilos em impor limites aos comportamentos que consideram precoces ou inadequados para a idade e nível de maturidade dos filhos. Os pais serão chamados de 'caretas', 'antiquados', 'ultrapassados', mas a tarefa de ser pai inclui especialmente em se manter seguro e tranquilo mesmo quando somos alvo de crítica.

O adolescente precisa do adulto como referência. Os adolescente já alcançaram uma certa autonomia e independência, mas ainda não estão prontos e aptos a exercê-las como o adulto. Por isso, é muito importante que os pais tenham consciência da importância para os adolescentes de pessoas dispostas a assumir o lugar da maturidade e da experiência com um olhar crítico sobre as questões existenciais e da vida em sociedade.



Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Pergunte aqui: Começando a vida sexual



Os jovens estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo, isso é ruim? Como os pais devem abordar os filhos sobre esse assunto?

Iniciar a vida sexual quando ainda não se tem a maturidade para vivenciá-la traz riscos como a gravidez precoce, o risco de doenças sexualmente transmissíveis entre outras. Além disso, o jovem imaturo sexualmente não tem ainda a condição e a possibilidade de experimentar a sexualidade como uma experiência integradora, com a noção de respeito pelo próprio corpo e pelo corpo do outro.

A educação sexual faz parte das responsabilidades dos pais que têm muitas possibilidades de orientar os filhos sobre a sexualidade, sem esquecer que eles ainda são bastante permeáveis às ideologias do mundo em que vivem e que a educação dada, por melhor que seja, não é vacina contra nada.

O que mais funciona é oferecer uma formação coerente, que comece cedo já nas primeiras perguntas e questionamentos sobre a sexualidade feitos pelas crianças. Não que se deva explicar tudo nesse início, as respostas devem ser dadas sempre de acordo com a profundidade e complexidade das perguntas feitas pelas crianças. Mas, por mais que seja difícil para alguns pais falar de sexo é importante que eles tentem informar os filhos da forma mais natural e tranqüila que puderem. Se, já nessas primeiras perguntas, abre-se um espaço para o diálogo franco e sincero as crianças e jovens terão no ambiente familiar um um espaço onde também se pode falar de sexo.

A educação sexual oferece a possibilidade para que o jovem se conscientize de suas responsabilidades relacionados ao início da vida sexual que inclui não apenas os métodos contraceptivos e de proteção contra DSTs, mas especialmente a possibilidade de desenvolver o cuidado de si mesmo, de seu corpo e do outro.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Pergunte aqui: Educação de Adolescentes



O que é melhor quando se fala de educação nessa idade tão complexa - a imposição ou a conversa?

Os adolescentes, ao contrário das crianças, já tem condição de compreender os argumentos e motivos que levam os pais a negarem pedidos e impor limites.

A possibilidade de diálogo nessa fase constitui-se como uma oportunidade para educar os filhos, ou seja, argumentando e conversando com os adolescentes, os pais permitem que os jovens percebam e identifiquem situações de perigo ou risco, reconheçam e organizem prioridades entre outros.

Dialogar é interagir. Conversar significa falar mas também ouvir o que outro nos diz o que inclui, muitas vezes, discutir e conflitar. Esse desentendimentos são uma oportunidade para que pais e filhos negociem e considerem o que o outro pensa e diz.

Apesar da importância e dos possibilidades que o diálogo traz, é importante perceber que dialogar ou conversar com os filhos não significa que os adolescentes concordarão com seus pais.

O diálogo entre pais e filhos nem sempre chega a um acordo mas na adolescência cabe ao pai a autoridade e a responsabilidade de decidir pelos filhos num momento em que ele não têm ainda a autonomia e maturidade para decidir sozinhos. Assim, a tarefa da educação inclui em alguns momentos impor limites mesmo quando não são prontamente aceitos.

De qualquer maneira, o conflito resultante do diálogo entre pais e filhos é sempre muito educativo, principalmente para os adolescentes que, assim, aprendem a controlar suas emoções mais intensas e a reconhecer e respeitar o outro e seus próprios limites.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Adolescência e loucura





“A adolescência pode ser uma época tormentosa. O desafio misturado com a dependência, inclusive com a dependência extrema, faz com que o quadro da adolescência nos pareça loucura e confusão”.






WINNICOTT, D. W. (1963) "Atendimento hospitalar como complemento de psicoterapia intensiva na adolescência". In: O ambiente e os processos de maturação, Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.

O ambiente facilitador e a adolescência



O ambiente facilitador continua tendo lugar especial também na adolescência, especialmente para oferecer uma continência e moldura para as tendências que começam a se manifestar.

Os conflitos e fantasias da infância se incrementam em decorrência de conquistas da adolescência. Os conteúdos fantasmáticos da infância assumem agora a possibilidade de concretização na realidade. As fantasias infantis de ataque e assassinato no Édipo, a auto-destrutividade e suicídio, a gravidez, deixam de ser apenas fantasias e já se tornam possibilidades reais, o que incrementa a já complicada relação do adolescente com os pais e com seus impulsos agressivos (Winnicott, 1963).

O adolescente buscará no ambiente os controles externos tanto para conter esses conteúdos, como inclusive para derrubar os controles e se estabelecer independentemente dos pais, como pessoas capazes de vontade própria. (Del-Faro, 2007).

Os pais ao estabelecerem e manterem limites oferecem uma moldura, permitindo o confronto, essencial nesse momento. Para Winnicott é importante que esse confronto mantenha uma vivacidade, evitando atitudes sentimentalistas ou passivas, assim como não cabe reagir ao confronto de forma agressiva ou retaliativa.

A moldura oferecida pelos pais possibilita a conquista do autocontrole. Assim, os adolescentes podem se tornar cada vez menos dependentes do controle externo podendo confiar e recorrer a sua própria capacidade de continência e controle. (Del-Faro, 2007).

Conforme nos alerta Winnicott (1968) os pais quase não têm condições de ajudar na adolescência, no sentido de evitar os movimentos incômodos dessa fase, não é isso que lhes cabe. Ao contrário, o papel aos pais é “sobreviver, sobreviver intactos” aos ataques e rebeliões próprios e saudáveis à idade.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Pergunte aqui: Precocidade

O que perdem os jovens com amadurecimento precoce?

Anteriormente escrevemos sobre as diferenças entre ser precoce e maduro e partindo disso podemos responder melhor essa nova pergunta.

Muitas vezes os adolescente são levados e cobrados a se comportarem de forma adulta, a lidarem com seu sentimentos, dúvidas e medos como adultos. Os pais podem em algum momento ignorar as incertezas e especificidades desse momento do desenvolvimento cobrando dos adolescentes atitudes maduras e coerentes para as quais eles ainda não estão preparados. Forçar esse tipo de comportamento maduro pode ser complicado para os adolescentes que podem ser sentir sobrecarregados, pressionados, inseguros, sozinhos.

Por outro lado, alguns jovens influenciados pela mídia, pelos grupos e amizades podem adotar certos comportamentos, precoces, para os quais ainda não estão maduros e preparados para assumi-los com responsabilidade e com consciência de seus efeitos e consequências.

Adotando esses comportamentos precoces o adolescente deixa de vivenciar os movimentos e as conquistas próprias dessa fase do desenvolvimento. A imaturidade, a incerteza, a dúvida são características importantes da adolescência e são condição para que o jovem se constitua, com o apoio da família, da escola e do círculo social, como um adulto maduro e saudável.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais


Pergunte aqui: Meu filho precisa de ajuda?



Como saber se meu filho está bem ou se ele precisa de alguma ajuda?

Os adolescentes podem precisar de ajuda, mas nem sempre conseguirão pedir aos pais ou aos adultos responsáveis. Podem ter dificuldade de pedir ajuda assim como de identificar situações em que essa ajuda é necessária.

É preciso portanto que os pais fiquem atentos e que compreendem que a adolescência é mesmo uma fase turbulenta, de confusão e instabilidade. É a imaturidade do jovem que define a saúde de uma adolescente, o que quero dizer é que ser saudável nesse momento é ser adolescente com suas imaturidade instabilidade e confusão. Toda essa confusão produz muita angústia e sofrimento nos adolescentes. 


Alguns pedirão ajuda dando mais trabalho, desrespeitando regras e forçando ainda mais a presença e participação dos pais. Quando além disso os pais percebem um sofrimento que se mantém indicamos a psicoterapia como um dos caminhos possíveis de ajuda e apoio. O espaço terapêutico oferece a oportunidade de elaboração das questões movimentadas na adolescência.

Aém disso, curiosamente, os pais devem ficar atentos a jovens excessivamente maduros, senhores de si, que dessa forma se afastam de toda a natureza turbulenta e instável que caracteriza a adolescência. Esses adolescente mais “maduros” provavelmente serão aquele que nos darão menos trabalho, mas podem ser justamente aqueles que mais precisam de nosso cuidado.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Precoce ou maduro?


Dizem que os adolescentes estão precoces; que cada vez mais adotam comportamentos e atitudes adultas; que estão amadurecendo mais rápido. Mas será que a precocidade é sinônimo de amadurecer?

É essencial diferenciar as idéias de precocidade e maturidade.

O sujeito precoce é aquele que tem comportamentos ou atitudes antes de seu tempo, antes da hora, de forma precipitada. A maturidade ao contrário diz respeito ao alcance de uma posição emocional e psíquica condizente a sua idade e ao seu momento no desenvolvimento.

Muitos adolescentes reivindicam direitos adultos – a namorar, a iniciar a vida sexual, a morara sozinho, a cuidar e decidir sobre sua própria vida e futuro – mas por outro lado, parecem desconhecer e ignorar os deveres e responsabilidades relacionadas às nossas escolhas.

O que quero dizer é que os adolescentes apenas dizem ser adultos. Por trás dessas exigências e reivindicações, os adolescentes ainda permanecem imaturos, portanto incapazes de se comprometer com suas escolhas de forma responsável como o adulto.

Assim, por mais precoce que sejam os pedidos dos jovens é essencial o cuidado e a atenção dos pais. Serão esses adultos, os responsáveis por auxiliar o jovem na conquista gradual da maturidade. Pouco a pouco, o adolescente torna-se capaz de responder às exigências do mundo, aos seus desejos e ambições de forma madura, ou seja, reconhecendo as consequências e efeitos das escolhas.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais