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Casamentos possíveis



Em geral, a gente casa com a pessoa certa: com quem podemos culpar por nossos fracassos


Uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer".

Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.

Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.

As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.

Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.

Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.

Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".

Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa "certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.

Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças", que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.

Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.

Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.

À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma - nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.

O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.

(Contardo Caligaris, 10 de setembro de 2009)

Sobre a vida juntos

Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente


Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la "Dormindo com o Inimigo". 

Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista "New Yorker" e em alguns livros (por exemplo, "Travels with Alice", viajando com Alice, de 1989, e "Alice, Let's Eat", Alice, vamos para a mesa, de 1978).

Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo?

Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001. Trillin escreveu "Sobre Alice", que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos.

O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de "Sobre Alice": "Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia". A graça está no fato de que a "propensão" de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel.

Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.

Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal.
  
Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura. 

(Trechos do texto de Contardo Caligaris, 04 de janeiro de 2007)

O analista ajuda?



Certa vez ouvi de uma psicóloga muito experiente que não existem bons terapeutas e sim bons clientes. Essa foi uma resposta bastante provocativa que ela deu a um paciente que a procurara anos atrás. O homem mais velho dizia ter passado pelos melhores psicanalistas e psicólogos da cidade e segundo ele : "Ninguém me deu jeito".

A fala da psicóloga me fez pensar numa questão que frequentemente é posta a nós terapeutas. Muitos clientes, quando nos procuram, acreditam estar diante de alguém que é capaz de resolver todos os seus problemas, quase como num passe de mágica. Essa ideia de que o analista tem um saber sobre o outro é uma miragem.

Nós, ainda muito acostumados com o modelo médico, estranhamos os efeitos e os métodos da psicoterapia. Ela funciona a partir de métodos profundamente distintos. Não cabe ao psicólogo dizer o que deve ou não ser feito - isso ocorre apenas em casos mais extremos onde psicólogo atuará como um acompanhante terapêutico agindo de forma mais diretiva.

O analista trabalha com a escuta do outro - uma escuta que não é só de palavras mas também de 'silêncios'. É por meio disso que seu trabalho se torna possível. O analista ajuda como presença. Ele se oferece e disponibiliza um espaço de acolhimento que possibilita o cliente refletir e questionar seus desejos, sua condição.

O analista é aí muito mais uma ferramenta do que um produtor de resultados. São os processos individuais de cada paciente que determinam o ritmo do avanço terapêutico.

A análise auxilia o sujeito na descoberta de seus fantasmas, seus medos, suas possibilidades. Ela se torna um local onde o paciente traça seu próprio caminho. Cabe portanto ao paciente utilizar-se desse espaço, tomá-lo como um espaço seu e como uma oportunidade para o seu crescimento pessoal.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

Psicoterapia Adulto


Quando procurar?    

Sempre que percebemos que nossa vida não está no rumo certo – no rumo que escolhemos – quando estamos diante de dificuldades que nos parecem insuperáveis, quando nos sentimos perdidos, quando nos deparamos com dores emocionais fortes, a psicoterapia surge como um local privilegiado para o trato dessas questões. O psicólogo é o profissional qualificado para nos acompanhar neste momento.   

 No entanto, apesar de todas as mudanças que vemos nos dias de hoje, a psicoterapia continua sendo motivo de constrangimento para muitos, que ainda acreditam que o psicólogo deve ser procurado, apenas, por pessoas que apresentam algum tipo de mal ou transtorno mais sério. 

Na verdade este é um equívoco: o psicólogo é o profissional profundamente comprometido com a saúde do cliente, é este o seu foco de trabalho.    


Como é o trabalho?  

O psicoterapeuta oferece ao cliente um espaço único de escuta e apoio, a partir do qual promove o processo de crescimento e de mudança de vida, respeitando sempre a história pessoal de cada um, assim como seus valores, seus desejos e sonhos.    

Para que a psicoterapia seja produtiva é essencial a disposição do próprio cliente. A terapia não é um trabalho impositivo ou obrigatório, respeitamos o caminho de cada um, inclusive a vontade de dar início ou não a seu próprio trabalho psicoterapêutico. Nosso trabalho depende profundamente do desejo do cliente em mudar, de se ver diante de seus problemas e buscar soluções novas.    


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Para mais informações entrar em contato pelo celular (31)99672653, ou pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com