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O Peru de Natal


A proximidade do Natal me fez lembrar de um conto muito bonito de Mário de Andrade. Ao contrário da visão idealizada do Natal, aqui o autor nos apresenta um cenário realista do encontro de uma família e dos conflitos que emergem disso.

O Peru de Natal
(Mário de Andrade)

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar.

Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram.

E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer!

O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz.
Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...


Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

....e há de se amar, e amar, e amar e até morrer de amor!!



Após ler o texto de Martha Medeiros, publicado no blog na semana passada, uma amiga se encorajou a pensar e escrever um pouquinho sobre o amor. O resultado é esse texto que apresento abaixo:


....e há de se amar, e amar, e amar e até morrer de amor!!
(Marília Nunes)

Amor,

sentimento difícil de se decifrar. Amor parece ser um elo, que nos liga aos nossos semelhantes, que nos faz nos reconhecer nas outras pessoas. Amor não é apego, mas muitas vezes de tão grudado essas coisas se confundem. Amor é livre. É ser livre e deixar ser. Não querer se moldar aos outros nem moldar ninguém ao que você quer. Amor é se reconhecer! Eu me amo quando me reconheço e me ligo a mim mesmo. Eu te amo, quando te reconheço e me ligo a você. Ligação de alma, reconhecimento de elos. Se agora sinto falta, o que me falta? É amor? Então provavelmente não estarei conectado à essência própria de meu ser. Ainda não me reconheço. Terminei um relacionamento de anos, o que me falta? Os beijos, abraços, carinhos? Falta me reconhecer, pois eu me via a partir do outro e agora sem ninguém, não me vejo. Isso é apego. É projeção. Será que eu amava o outro? Ou só estava amando o que ele fazia, e não o que ele era? Isso é egoísmo, amor é outra coisa. Tal qual como aquele aplicativo do facebook rs

Então para receber um grande amor, se prepare, pois terá que amar a si mesmo, e treinar a amar seus semelhantes. Tal qual como eles são. Não importa o que os outros fazem, importa o que eu faço. A postura de vítima não ajuda ninguém, não faz ninguém crescer. Ela é destrutiva. Só alimenta a mágoa, o rancor. Não é produtiva. O amor é outra coisa. O amor emana do ser. É o elo entre todos os seres. É uma lei de ligação do Universo! Ame, ame, ame completamente. Ligue-se à fonte inesgotável do amor. Seja você mesmo e não o seu ego. Seja o que tem que ser. O ego é só um auxiliar para lidar com as questões do mundo. Não é a essência própria de todas as coisas. Já dizia Exupéry: “o essencial é invisível aos olhos”. E não é mesmo? Alguém aí já viu esse tal de amor? Amor é essência divina no coração de todas as criaturas. É natureza, é música e poesia.

A despedida do amor

Texto fornecido por um paciente querida:




A Despedida do Amor 
(Martha Medeiros)


Existem duas dores de amor: 

A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida… Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós. Queremos, lógicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a “dor-de-cotovelo” propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente…

E só então a gente poderá amar, de novo.

A gente não é sério com dezessete anos


Romance1 

(Arthur Rimbaud)

I
A gente não é sério aos dezessete anos.
– Uma bela noite, longe dos chopes e do anseio,
Dos cafés barulhentos de lustres soberanos
– Vamos sob as tílias 2, verdes do passeio.

As tílias cheiram bem nas boas noites de junho!
O ar é às vezes tão doce que fechamos os olhos;
A cidade não está longe -  o vento é testemunho - 
Há perfumes de vinhedos e perfumes de cerveja...

II
– Eis que percebemos um pano pequenino
Azul-escuro, ladeado por um pequeno galho,
Com uma estrelinha má, sumindo
Aos doces arrepios, branca como o orvalho... 

Noite de junho! Dezessete anos! Embriagados.
A seiva é champanhe e lhe sobe a cabeça...
Divagamos; sentimos um beijo nos lábios
Que palpita lá feito um bichano...

III
O coração louco vagueia como num romance,
- Quando, na luz um pálido lampião, 
Passa uma senhorita com encantos de relance, 
Na sombra do colarinho temível de seu pai...

E, já que ela lhe acha imensamente ingênuo
Enquanto deixa trotar as botinas,
Ela se vira, alerta, em movimento tênue...
– Nos teus lábios então morrem as cavatinas...

IV
Você está apaixonado. Tomado até o mês de agosto.
Você está apaixonado. Seus poemas a fazem rir.
Todos os seus amigos fogem, você é de mau gosto.
– E a adorada, uma noite, concedeu-lhe uma carta!...

- Essa noite... - você entra nos cafés soberanos, 
Você pede limonada ou um chope cheio...
- A gente não é sério com dezessete anos
E quando tem as tílias verdes do passeio."




1- Arthur escreve esse poema em 1870 aos 15 anos de idade.
2- Tília: árvore européia (tilleul, em francês)

O Massacre no Rio: "Precisamos falar sobre o Kevin"



O massacre ocorrido ontem na escola Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro era um crime até então inédito no Brasil e, inevitavelmente, nos faz lembrar de crimes semelhantes cometidos em outros paíes. O massacre de Columbine, é talvez um dos primeiros que nos vêem a mente.

Em 20 de abril de 1999, no Instituto Columbine, em Colorado - EUA - os estudantes Eric Harris de 18 anos, e Dylan Klebold de 17 anos, atiraram em vários colegas e professores, matando muitos jovens e deixando vários feridos. 

Foi a partir desse crime que a autora Lionel Shriver escreveu em 2007 o livro "Precisamos  falar sobre o Kevin", um texto polêmico que apresenta a relação de Kevin, um dos assassinos do massacre, e sua mãe Eva.

O texto ficcional se desenvolve por meio de cartas nas quais a mãe do assassino escreve ao pai ausente. Longe de pretender explicar as origens e constituição do criminoso, o livro nos aproxima dos dramas e conflitos de uma mulher com a maternidade, que não se impôs de forma alguma de maneira natural, instintiva e amorosa. Fala-se aqui de uma mãe que rejeita seu bebê e que não encontra um sentido sublime nem amoroso em ser mãe.

Um trecho do livro:

"É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho, e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu no meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribui a rejeição - talvez ele fosse 15 vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego a quase admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antogonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe. Porque, depois de quase dezoito anos, faltando apenas três dias, posso finalmente anunciar que estou exatsuta demais e cofnusa demais e sozinha demais para continuar brigando, e , nem que seja por desespero, ou até por preguiça eu amo meu filho. Ele tem mais cinco anos sombrios para cumprir em uma penitenciária de adultos, e não posso botar minha mão no fogo pelo que sairá de lá no final. Mas, enquanto isso tenho um segundo quarto em meu apartamento funcional. A colcha é lisa. Há um exemplar de Robin Hood na estante. E os lençóis estão limpos."


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto

Belo Horizonte I Minas Gerais

Notas de Saramago


Sempre com honestidade


"Eu sou uma pessoa pacífica, sem demagogia nem estratégia. Digo exactamente o que penso. E faço-o de forma simples, sem retórica. As pessoas que se reúnem para escutar-me sabem que, independentemente de coincidirem ou não com o que penso, sou honesto, que não trato de condicionar nem de convencer ninguém. Parece que a honestidade não se usa muito nos tempos actuais. Eles vêm, escutam e vão contentes como quem tem necessidade de um copo de água fresca e a encontra ali. Não tenho a mínima ideia do que vou dizer quando estou diante das pessoas. Mas digo sempre o que penso. Nunca ninguém poderá dizer que o enganei. As pessoas têm necessidade de que lhes falem com honestidade.."

In : José Saramago nas Suas Palavras, 2003.

Notas de Saramago

Essa estranha enfermidade




"Nenhuns seres humanos, incluindo aqueles que já atingiram as idades a que chamamos de senectude, podem subsistir sem ilusões, essa estranha enfermidade psíquica indispensável a uma vida normal."

In : José Saramago, O Homem Duplicado, Ed. Caminho, 2.ª ed., p. 149

Notas de Saramago

Essa coisa estranha, rara e misteriosa



"Se olharmos as coisas de perto, na melhor das hipóteses chegaremos à conclusão de que as palavras tentam dizer o que pensámos ou sentimos, mas há motivos para suspeitar que, por muito que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento."


In: José Saramago nas Suas Palavras, “Las palabras ocultan la incapacidad de sentir”, ABC (Suplemento ABC Literario), Madrid, 9 de Agosto de 1996.

Notas de Saramago

O que influencia o amanhã


"A pergunta que todos deveríamos fazer-nos é: Que fiz eu se nada mudou? Deveríamos viver mais no dessassossego. Não haverá amanhã se não mudarmos o hoje. Como se conta em A Caverna, tudo o que levamos às costas é passado e todo esse passado, incluindo a desesperança e a desilusão, é o que influencia o amanhã. Há que fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a sensibilidade, com tudo".

In: José Saramago nas Suas Palavras - “Antes el burócrata típico era un pobre diablo, hoy registra todo”, La Nación, Buenos Aires, 13 de Dezembro de 2000

O estranhamento do corpo: notas de Alice


"Meu deus, meu Deus!Como é tudo esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: "Quem eu sou?". Ah, essa é a grande charada!". 

E ela começou a pensar em todas as crianças da sua idade que conhecia para ver se não podria ter sido trocada por alguam delas.

In: Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas, p.26

O Apanhador no campo de centeio




"– Seja lá como for, fico imaginado uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice." 
 


 Holden, o adolescente protagonista de O Apanhador no Campo de centeio (Salinger, 1999 [1951]: 168)

Por quê os adolescentes gostam de Crepúsculo?




Tema de minha monografia de especialização, a leitura jovem nos fornece importantes elementos para compreender os conflitos, os mecanismos e processos relativos à adolescência. Em meu trabalho me dediquei especialmente em apontar os recursos de tradução do sexual encontrados nesses livros, mas Contardo Calligaris apresenta uma outra análise bastante interessante no artigo que se segue:


Adoráveis vampiros

O adolescente é uma espécie de lobisomem que sonha coma sublime compostura dos vampiros

Os vampiros estão conosco há séculos, mas eles entraram mesmo na cultura popular jovem no início dos anos 1980, com a onda "dark" e a cena "gótica".

Logo, filmes e seriados inventaram o vampiro abstinente ou "vegetariano", que luta contra seus semelhantes e protege os humanos. Com isso, o vampiro deixou de povoar nossos pesadelos e se tornou objeto de sonhos e desejos.

Mas por que especialmente uma adolescente gostaria de amar ou, quem sabe, de ser um vampiro? Para responder, basta ler a maravilhosa saga escrita por Stephenie Meyer, que já conquistou milhões de leitores pelo mundo afora. Os dois primeiros volumes, ""Crepúsculo" e "Lua Nova", já existem em português (ed. Intrínseca); o terceiro ("Eclipse") e o quarto ("Amanhecer") não vão tardar.

Também, na semana passada, estreou no Brasil a versão cinematográfica de "Crepúsculo" (gostei, embora menos do que dos livros).

Enfim, só para lembrar: a saga conta a história de Bella, uma adolescente que se apaixona por Edward, um colega de classe que é diferente dos demais- entre outras coisas, como ela descobre, por ele ser um vampiro. Claro, os amores entre humanos e vampiros são complicados. Por exemplo, os transportes da paixão podem ser perigosos (em português, ninguém duvidará que, à força de desejar, um dos amantes possa chegar a comer o outro). Isso, sem contar o descompasso pelo qual o vampiro permanecerá jovem para sempre, enquanto o humano envelhecerá. E uma pergunta para a qual não encontrei resposta: será que vampiro e humano podem se reproduzir sexualmente? Qual é o resultado do cruzamento?

Os românticos lerão na saga uma linda história em que o amor ultrapassa diferenças extremas e, por isso mesmo, deve transformar radicalmente os dois amantes. Outros pensarão nas situações em que um amante abnega seu amor e se separa pelo bem do amado ou da amada (se é que esse desprendimento é possível no amor, será que alguém pode aceitar ser abandonado pelo seu próprio bem? Questão abstrata? Nem tanto: pense nos casos em que um dos dois se descobre portador de uma doença transmissível e potencialmente letal).

Pergunta: Edward tem muito charme, mas por que uma adolescente se apaixonaria por um vampiro e ambicionaria se transformar, ela mesma, em vampiro? Há uma longa lista de razões pelas quais um humano, e sobretudo um adolescente, poderia gostar de ser vampiro, mas a mais óbvia é que os vampiros conseguem crescer, acumular experiência, viver intensamente a eternidade inteira, tudo isso sem ser escravos de um corpo que, além de mortal, é sempre, por assim dizer, excessivo- um pouco asqueroso.

O adolescente, empurrado para a bulimia por seu crescimento desordenado, se fecha na anorexia (ou tenta vomitar o que comeu) porque a perspectiva de ter um dia um corpo adulto lhe inspira repulsa: os corpos adultos são vulgares, com seu cheiro, seus roncos de barriga e de sono, suas bocas abertas mastigando e, na hora do desejo, a vontade de enfiar mãos e órgãos nos suores entre pernas e orifícios, ou mesmo de misturar línguas, salivas e bocas. Convenhamos: uma mordida no pescoço seria muito mais elegante.

Os lobisomens (que chegam no segundo volume da saga de Meyer e, portanto, estarão no próximo filme) devoram seus alimentos, desmaiam na hora de dormir e estão sempre próximos de perder o controle de si.

O adolescente é um lobisomem que sonha com a compostura dos vampiros, os quais, ao contrário, não comem, não precisam respirar nem dormir, exalam um cheiro e um hálito sublimes porque, gélidos, eles não carburam, não apodrecem, não defecam (aliás, será que urinam?).

Em suma, o vampiro é livre das indignidades dos organismos vivos, ele não precisa daqueles envergonhados "momentos humanos" em que Bella se esconde de Edward para cuidar de seu corpo (carcaça?).

Não sei se Bella se tornará ou não um vampiro (saberemos, imagino, no fim da saga). Mas estou convencido de que muitos (adolescentes e adultos) estão contemplando essa possibilidade.

É que faz bastante tempo que a gente procura um jeito de não ser "apenas" um corpo mortal, vulgar e malcheiroso. Já experimentamos de tudo: desde a fé na existência autônoma da alma até a depilação a laser, o desodorante e o fio dental três vezes por dia. Por que não o vampirismo? Poderia ser um propósito para o ano novo.

Contardo Calligaris - 25 de dezembro de 2008