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Sobre a loucura e a psicologia




Foucault em História da Loucura:
"A Psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da Psicologia".
Enquanto isso, "Na psicanálise, o que está em jogo não é a psicologia, mas, exatamente, uma experiência da desrazão que a psicologia no mundo moderno houve por bem ocultar" (p. 338).

Tudo é culpa da mãe.



TUDO É CULPA DA MÃE.
(Da série: 10 Mitos sobre a Psicoterapia e Psicanálise)

MENTIRA. A Psicanálise atribui grande importância as relações do sujeito com os pais. Essa relação primeira desempenha um papel fundamental na organização da vida mental. No entanto, não devemos jogar a culpa, pelo que somos, em nossos pais.

Culpar os pais pela situação presente em que nos encontramos torna-se uma armadilha perigosa, pois não somos capazes de mudar o passado. Nesse sentido, a Psicanálise nos alerta para o perigo de uma posição de vítima e busca tirar o paciente da posição de acusação fazendo-o assumir a responsabilidade por sua vida, sua condição e seus problemas, mesmo que eles tenham origem na história familiar.

Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

O analista entra mudo e sai calado.


O ANALISTA ENTRA MUDO E SAI CALADO.
(Da série: 10 Mitos sobre a Psicoterapia e Psicanálise)

MENTIRA. O silêncio tem várias funções. Numa análise pode possibilitar que o sujeito escute a si mesmo, assim como dar mais ênfase às intervenções do analista.

O analista passa períodos calados forçando o cliente a prestar atenção no que ele diz. Isso porque as principais mudanças não acontecem quando escutamos o outro, mas quando nos tornamos capazes de nos escutar.

Além disso, cada profissional tem um estilo próprio de atendimento que tem a ver com a teoria que o norteia, mas não apenas. As teorias estão a disposição dos profissionais não como um modelo rígido de atuação. Cada psicoterapeuta ou analista imprime em seus atendimentos sua forma pessoal de agir nas situações, por isso cada profissional terá sua forma particular de atendimento, alguns mais quietos e outros mais falantes.

Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

O que é a Psicanálise?



Investigar, tratar e diminuir as dores são as razões de ser desse método. Veja as definições  
segundo alguns profissionais:

*
"Serve para diminuir ao mínimo possível o sofrimento neurótico e o sofrimento banal, ou seja, reduzi-los ao que é totalmente inevitável; serve para tentar reorientar ou desorientar a vida da gente --desorientar é uma maneira de orientar! Enfim, serve para tornar a experiência cotidiana muito mais interessante. Pensando bem, quase tudo se inclui nessas três coisas"

Contardo Calligaris
Psicanalista e colunista da Folha

*
"A psicanálise é um método de investigação do modo de funcionar da mente que, bem-sucedido, tem como consequências um desenvolvimento maior da personalidade e proporcionar condições de bem-estar mental. Para que serve? Eu poderia perguntar: para que serve existir? A utilidade da psicanálise compartilha com o sentido de nossa própria existência"

Luiz Tenório Oliveira Lima
Psicanalista e professor

*
"Tratar das dores da alma. E é um processo tão longo para diluir a dor quanto foi para implantá-la. A substância com a qual a psicanálise lida não obedece às leis da mecânica. Não tratamos de matéria, não tratamos de concretudes: são dores da alma, substâncias de outra categoria"

Anna Veronica Mautner
Psicanalista e colunista da Folha

*
"Serve para possibilitar que a pessoa suporte viver a pós-modernidade. Saímos de uma sociedade que estabelecia claramente os certos e os errados. O homem atual se apavora frente a essa liberdade e se esconde atrás das fórmulas prontas de viver. Nesse contexto, a psicanálise vai na contracorrente da ideologia de que tudo tem remédio, dos livros de autoajuda e das neorreligiões. Ela transforma, a angústia paralisante do homem frente à liberdade responsável das opções, em uma ação criativa."

Jorge Forbes
Psicanalista e psiquiatra

*
"O objetivo da psicanálise é libertar o paciente de seus sintomas e de seus problemas. Acima de tudo, é um método curativo, além de ajudar a transformar o paciente em alguém mais adaptado à sua realidade e aumentar a sua inteligência emocional."

Juan-David Nasio
Psicanalista, diretor dos Seminários Psicanalíticos de Paris

In: Folha de São Paulo. 27/09/11

III Colóquio Winnicott em Belo Horizonte

Para psicólogos e cuidadores de plantão, um evento interessante que acontecerá em BH no próximo final de semana. 




Partindo das contribuições de Winnicott haverão discussões muito interessantes sobre a delinquência, suas origens e tratamento. Essa é uma boa oportunidade para aqueles que se interessam pelo pensamento de Winnicott ou para aqueles curiosos em conhecer esse teórico. Este ano participarei das Comunicações apresentando o artigo O manejo na Clínica Winnicottiana: discussões a partir de um caso clínico de um adolescente.

Interessados em se inscrever cliquem aqui.

Vampiros comportados



Mais um texto interessante de Calligaris para quem gosta de pensar no fenômeno da adolescência e suas nuances. Destaque para a ideia da implantação do desejo pelo outro e da contaminação do adolescente pelo desejo e sexualidade adulta.



Os adolescentes de hoje "desejam pequeno" ou será que eles perseguem um ideal de autocontrole?

Nos últimos anos, repetidamente, manifestei certa preocupação com o fato de que os adolescentes de hoje me parecem "desejar pequeno", ou seja, sonhar com projetos muito "razoáveis", se não desanimadores e quase resignados. A adolescência de minha geração, nos anos 1960, era o contrário: sonhávamos com uma grandiosidade ridícula, sem preocuparmo-nos com as condições efetivas de realização de nossos sonhos.

Deu no que deu: alguns efeitos bons, outros péssimos. Por exemplo, não conseguimos fazer "a" revolução, mas transformamos os costumes (para melhor, pelo menos até agora). Por outro lado, nossa paixão revolucionária defendeu e sustentou caricaturas sinistras de nossos ideais sociais -ou seja, nossas aspirações, por serem desmedidas, produziram alguns monstros.

Talvez isso não aconteça (ou aconteça menos) com os adolescentes de hoje; não seria necessariamente uma perda. Um pai, preocupado, como eu, com o "desejar pequeno" do filho, foi direto ao assunto e perguntou ao menino: "Mas quais são seus sonhos para a vida?". A resposta que ele recebeu o levou a me escrever: "É como se ele (o menino) desconfiasse de seus desejos, como se achasse que eles não são bem dele".

De fato, os adolescentes sempre têm certa desconfiança em relação à proveniência de seu querer. Afinal, logo quando eles começam a sonhar com o que poderia ser sua vida adulta, sofrem também uma irrupção de desejos que, no começo, mal entendem.

Claro, a sexualidade já existe na infância, mas, na puberdade, ela chacoalha o corpo de maneira inédita. É compreensível que um adolescente se pergunte o que é aquilo, para que serve e sobretudo de onde vem. Em geral, antes mesmo de ter se acostumado com a transformação de seu corpo, o adolescente constata que os adultos olham para ele de maneira diferente, como se ele fosse um objeto erótico possível. Disso deriva, provavelmente, a suspeita do adolescente de que o desejo que o transforma vem dos outros -dos adultos, que devem ser todos tarados.

Das primeiras reflexões de Freud até George A. Romero ("A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968), esta explicação se popularizou: o desejo vem dos adultos, que avançam babando atrás da gente, querem nos pegar e, se possível, morder e contaminar. Mortos-vivos ou simplesmente artríticos, eles têm mobilidade restrita e pouca fantasia, pois só parecem querer uma coisa: que a gente fique que nem eles.

Pois bem, com a saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer (e sua adaptação cinematográfica), apareceu um novo paradigma da origem do desejo (alimentado, aliás, por séries televisivas, como "True Blood" e "Vampire Diaries"). Eis qual.

O desejo continua vindo dos outros, mas a mordida que contamina é desejada ardentemente pelas "vítimas", enquanto vampiros (e lobisomens) se controlam: embora sejam tão fissurados quanto um morto-vivo à procura de carne, eles resistem e se recusam a morder, enquanto os humanos imploram para serem mordidos.

O novo paradigma, em suma, diz que: 1) o desejo vem dos outros, mas, uma vez que tenhamos sido mordidos (como queremos ser), ele será o nosso, estará na gente, 2) ser vampiro à nossa vez será ótimo e 3) não por isso esqueceremos que desejar é um exercício de autocontrole.

É como se os adolescentes estivessem adotando um ideal em que o desejo seria deles mesmos, fortíssimo e indomável (uma verdadeira fissura), mas heroicamente contido. O vampiro será vegetariano, só se permitirá beber sangue de animais e saberá amar uma humana sem ceder à vontade louca de mordê-la. Da mesma forma, nós, sem recalque, teremos fantasias, sonhos e desejos, sexuais ou outros, poderosíssimos, mas saberemos discipliná-los.

Será que os adolescentes "desejam pequeno" (como eu pensava) ou será que, à diferença de nós quando éramos adolescentes, eles não idealizam o descontrole, mas a disciplina de si?

Se esse for o caso, talvez os adolescentes de hoje devam sua sabedoria à constatação de que, ao sair de cena, nossa geração, que pretendia desejar muito e descontroladamente, não está deixando uma lembrança muito boa.

Só um exemplo: o descontrole do desejo, ultimamente (e não só no Brasil) aparece sobretudo na falta de autocontrole de classes políticas desavergonhadas e vorazes (de votos ou de privilégios).

In: Contardo Calligaris (Folha de São Paulo, quinta-feira, 11 de agosto de 2011)
O adolescente como intérprete do desejo do adulto: inversões e proposições acerca da adolescência e passividade


Apesar da adolescência não ser um conceito psicanalítico propriamente dito, isso não impediu que ela fosse alvo de pesquisas e investigações. Dentre as diversas contribuições no campo da Psicanálise, destacamos o potencial frutífero da teoria da sedução generalizada de Jean Laplanche. Ao elaborar a relação complexa entre instinto e pulsão – questão central na teoria e na clínica de adolescentes – Laplanche possibilitou a articulação entre a teoria da sedução e os processos psíquicos próprios à adolescência. A partir disso e tendo essas contribuições como fio condutor, este artigo tem por objetivo discutir a tese de Calligaris sobre a adolescência como “realização do desejo inconsciente do adulto”. Ao apontar a passividade fundamental na constituição psíquica, a teoria da sedução generalizada nos possibilita pensar e refletir sobre os efeitos e características da alteridade também na adolescência.

Palavras Chave: Adolescência; Teoria da Sedução Generalizada; Passividade.

Adolescência e loucura





“A adolescência pode ser uma época tormentosa. O desafio misturado com a dependência, inclusive com a dependência extrema, faz com que o quadro da adolescência nos pareça loucura e confusão”.






WINNICOTT, D. W. (1963) "Atendimento hospitalar como complemento de psicoterapia intensiva na adolescência". In: O ambiente e os processos de maturação, Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.

Os tipos de psicoterapia por Winnicott



“Existem, no entanto, muitas variedades de psicoterapia, que deveriam depender não dos pontos de vista do terapeuta, mas das necessidades do paciente ou do caso. Quando possível, aconselhamos psicanálise. Quando não for possível, ou houver argumentos contra, então pode-se criar uma modificação adequada”.

In: Winnicott, D. W. (1986) Tipos de Psicoterapia. Tudo começa em casa.  (p.93)
Breve diálogo entre Laplanche e Ferenczi:
Efeitos do encontro da Linguagem da ternura e da linguagem da paixão


Freud constrói sua teoria da sedução como origem dos sintomas neuróticos. Nessa perspectiva, localiza na infância mais tenra uma "cena de sedução" que se desmembrará em dois momentos distintos: o momento da cena em si, onde não há ainda qualquer excitação sexual para a criança, e um momento posterior, próximo a puberdade, onde a cena original é carregada de excitação sexual que exige do Eu o recalque da lembrança. A teoria da sedução freudiana será abandonada, mas é o ponto de partida para a construção da teoria da sedução generalizada de Laplanche. Essa teoria se apóia na realidade factual das mensagens enigmáticas emanadas por um adulto clivado em seu inconsciente. A partir dos cuidados básicos e essenciais do adulto com o bebê, são implantados conteúdos que serão - apenas "a posteriori" - parcialmente traduzidos. Segundo nos alerta Sándor Ferenczi, a divergência entre a linguagem da ternura, própria a criança, e a linguagem da paixão do adulto, provoca desencontros entre o conteúdo implantado e as traduções possíveis à criança: a confusão de línguas traz dificuldades e limites à tradução. Muito além dos conteúdos decifráveis, a criança se depara com um resto que exigirá novas traduções e simbolizações incessantemente.

Palavras Chave: Psicanálise; Teoria da sedução generalizada, Ferenczi.

Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com

A mãe suficientemente boa

Para Winnicott, a mãe suficientemente boa não é a mãe perfeita ou a mãe que não erra jamais. Ao contrário, está em cena uma mãe falha, que erra e que permite que seu bebê se frustre com a realidade que nada tem de perfeita. 


O bebê humano é dependente do ambiente, necessita da atenção e da provisão de um cuidador, normalmente representado pela mãe. Para que a mãe compreenda as necessidades de seu bebê é importante que ela esteja profundamente identificada com ele. Winnicott recorre aí ao seu conceito de “Preocupação Materna Primária”. 

Esse fenômeno, que acomete as mães nos últimos momentos da gestação e as acompanha nos primeiros meses do nascimento, diz da  profunda identificação com o bebê que permite que a mãe reconheça suas necessidades iniciais. É comum vermos nesse momento mães que dão sentido aos choros, aos sons do bebê, atribuindo significado e sentido á essas primeiras expressões.

Apesar da importância da mãe nessas primeiras cenas, Winnicott destaca a importância de uma “cobertura externa protetora” e aponta aí para a participação fundamental do pai e da sociedade  - elementos essenciais para que a mãe seja capaz de se desligar momentaneamente de outros aspectos de sua vida, identificando-se com seu bebê. 

Nesse período inicial bebê e mãe formam uma unidade que vai gradualmente sendo superada. A mãe vai pouco a pouco se desidentifcando com seu bebê e voltando-se para seus outros interesses e para outros aspectos de sua vida. Essa desadaptação é gradual e vai de encontro tanto com as condições específicas da mãe – agora não mais totalmente identificada com seu bebê, ressurgindo seus antigos interesses e atividades – como também com a conquista de uma maturidade por parte do bebê, que não precisa mais dos mesmos cuidados da dependência absoluta. Dá se início aí, ao estágio da dependência relativa.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais

O atendimento de adolescentes


A Psicologia tem como compromisso oferecer aos seus clientes um espaço no qual ele possa se aproximar de sua história de uma forma diferente. Isso é o que temos de mais valioso a oferecer: um espaço onde o adolescente possa se expressar e se engajar em sua própria vida e em suas escolhas. A psicoterapia coloca-se como uma oportunidade para que o jovem se encontre com seus verdadeiros desejos, frente a tendência a ficar fixado em identificações relacionadas aos desejos dos pais.

Mas esse trabalho tem se mostrado uma tarefa árdua. A experiência tem demonstrado que o engajamento de adolescentes não é simples.

O pessimismo com relação ao trabalho com adolescentes está muitas vezes relacionado a rigidez nas técnicas de atendimento que não servem bem às necessidades e características típicas do adolescente. Suas frequentes mudanças e particularidades nos obrigam a repensar a prática propriamente dita, deixando de lado o referencial da análise de adultos e crianças, oferecendo um modo de receber o paciente adolescente de acordo suas necessidades e especificidades.


Autora: Marina Reigado I Psicóloga Clínica
Consultório Rua Guajajaras, 1470 - Barro Preto
Belo Horizonte I Minas Gerais
A tarefa de tradução do sexual na adolescência:
Alegorias presentes em  O apanhador no campo de centeio


A adolescência marca o encontro do instinto sexual da puberdade com as fantasias da sexualidade infantil. O corpo do adolescente é  o local desse encontro que reabre enigmas e convoca o adolescente à difícil tarefa de tradução. Apoiados na teoria tradutiva  de Laplanche, buscamos apontar, na leitura do romance O apanhador no campo de centeio, os recursos e as alegorias de tradução do sexual disponíveis. A simbolização da pulsão sexual parece ser sempre incompleta, mesmo com as tentativas de simbolização. O corpo do adolescente é o objeto-fonte de pulsão que traz incessantemente à tona enigmas, reconduzindo o adolescente ao incansável trabalho de tradução.

Palavras-chave:  adolescência; psicanálise; Teoria Tradutiva

Artigo publicado em Pesquisas e Práticas Psicossociais 5(1), 001-137, São João del-Rei, janeiro/julho 2010.
Transferência e Contratransferência:
Impasses na clínica de adolescentes


Diante do reconhecimento dos conceitos de transferência e contratransferência como instrumentos fundamentais na psicanálise, faz-se importante investigar as dificuldades que temos enfrentado, como profissionais, diante do manejo desses instrumentos no atendimento de nossos pacientes adolescentes. Este artigo tem como objetivo apresentar uma investigação e um levantamento teórico acerca dos conceitos citados, estabelecendo uma relação com a prática clínica de atendimento de adolescentes, destacando as especificidades que os mesmos nos apresentam e pensando em como nós, analistas, podemos oferecer um tratamento bem sucedido.

Palavras Chave: Adolescência; Metapsicologia; Transferência; Contratransferência.

 Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com

Para quê serve a Psicanálise?


A QUEM LUTA PARA SE MANTER ADULTO, O PATERNALISMO DÁ CALAFRIOS, OU MESMO VONTADE SAIR ATIRANDO

A Associação Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.

A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.

Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: "A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho".

No dia seguinte, Marina Silva comentou: "Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe". Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: "Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto".

Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.

O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.

Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?

Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança "maravilhosa" com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.

Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.

Roberto Succo (com "s"), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever "Roberto Zucco", peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.

Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: "matar" o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.

O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à "maioridade". Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.

Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.

Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.

Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem "friamente" governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.

É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.


(Contardo Calligaris - 26 de agosto de 2010)

Por quê os adolescentes gostam de Crepúsculo?




Tema de minha monografia de especialização, a leitura jovem nos fornece importantes elementos para compreender os conflitos, os mecanismos e processos relativos à adolescência. Em meu trabalho me dediquei especialmente em apontar os recursos de tradução do sexual encontrados nesses livros, mas Contardo Calligaris apresenta uma outra análise bastante interessante no artigo que se segue:


Adoráveis vampiros

O adolescente é uma espécie de lobisomem que sonha coma sublime compostura dos vampiros

Os vampiros estão conosco há séculos, mas eles entraram mesmo na cultura popular jovem no início dos anos 1980, com a onda "dark" e a cena "gótica".

Logo, filmes e seriados inventaram o vampiro abstinente ou "vegetariano", que luta contra seus semelhantes e protege os humanos. Com isso, o vampiro deixou de povoar nossos pesadelos e se tornou objeto de sonhos e desejos.

Mas por que especialmente uma adolescente gostaria de amar ou, quem sabe, de ser um vampiro? Para responder, basta ler a maravilhosa saga escrita por Stephenie Meyer, que já conquistou milhões de leitores pelo mundo afora. Os dois primeiros volumes, ""Crepúsculo" e "Lua Nova", já existem em português (ed. Intrínseca); o terceiro ("Eclipse") e o quarto ("Amanhecer") não vão tardar.

Também, na semana passada, estreou no Brasil a versão cinematográfica de "Crepúsculo" (gostei, embora menos do que dos livros).

Enfim, só para lembrar: a saga conta a história de Bella, uma adolescente que se apaixona por Edward, um colega de classe que é diferente dos demais- entre outras coisas, como ela descobre, por ele ser um vampiro. Claro, os amores entre humanos e vampiros são complicados. Por exemplo, os transportes da paixão podem ser perigosos (em português, ninguém duvidará que, à força de desejar, um dos amantes possa chegar a comer o outro). Isso, sem contar o descompasso pelo qual o vampiro permanecerá jovem para sempre, enquanto o humano envelhecerá. E uma pergunta para a qual não encontrei resposta: será que vampiro e humano podem se reproduzir sexualmente? Qual é o resultado do cruzamento?

Os românticos lerão na saga uma linda história em que o amor ultrapassa diferenças extremas e, por isso mesmo, deve transformar radicalmente os dois amantes. Outros pensarão nas situações em que um amante abnega seu amor e se separa pelo bem do amado ou da amada (se é que esse desprendimento é possível no amor, será que alguém pode aceitar ser abandonado pelo seu próprio bem? Questão abstrata? Nem tanto: pense nos casos em que um dos dois se descobre portador de uma doença transmissível e potencialmente letal).

Pergunta: Edward tem muito charme, mas por que uma adolescente se apaixonaria por um vampiro e ambicionaria se transformar, ela mesma, em vampiro? Há uma longa lista de razões pelas quais um humano, e sobretudo um adolescente, poderia gostar de ser vampiro, mas a mais óbvia é que os vampiros conseguem crescer, acumular experiência, viver intensamente a eternidade inteira, tudo isso sem ser escravos de um corpo que, além de mortal, é sempre, por assim dizer, excessivo- um pouco asqueroso.

O adolescente, empurrado para a bulimia por seu crescimento desordenado, se fecha na anorexia (ou tenta vomitar o que comeu) porque a perspectiva de ter um dia um corpo adulto lhe inspira repulsa: os corpos adultos são vulgares, com seu cheiro, seus roncos de barriga e de sono, suas bocas abertas mastigando e, na hora do desejo, a vontade de enfiar mãos e órgãos nos suores entre pernas e orifícios, ou mesmo de misturar línguas, salivas e bocas. Convenhamos: uma mordida no pescoço seria muito mais elegante.

Os lobisomens (que chegam no segundo volume da saga de Meyer e, portanto, estarão no próximo filme) devoram seus alimentos, desmaiam na hora de dormir e estão sempre próximos de perder o controle de si.

O adolescente é um lobisomem que sonha com a compostura dos vampiros, os quais, ao contrário, não comem, não precisam respirar nem dormir, exalam um cheiro e um hálito sublimes porque, gélidos, eles não carburam, não apodrecem, não defecam (aliás, será que urinam?).

Em suma, o vampiro é livre das indignidades dos organismos vivos, ele não precisa daqueles envergonhados "momentos humanos" em que Bella se esconde de Edward para cuidar de seu corpo (carcaça?).

Não sei se Bella se tornará ou não um vampiro (saberemos, imagino, no fim da saga). Mas estou convencido de que muitos (adolescentes e adultos) estão contemplando essa possibilidade.

É que faz bastante tempo que a gente procura um jeito de não ser "apenas" um corpo mortal, vulgar e malcheiroso. Já experimentamos de tudo: desde a fé na existência autônoma da alma até a depilação a laser, o desodorante e o fio dental três vezes por dia. Por que não o vampirismo? Poderia ser um propósito para o ano novo.

Contardo Calligaris - 25 de dezembro de 2008

Adolescência



"Ao longo de mais ou menos 12 anos, as crianças, por assim dizer, se integram em nossa cultura e, entre outras coisas, elas aprendem que há dois campos nos quais importa se destacar para chegar à felicidade: as relações amorosas/sexuais e o poder (ou melhor, a potência) no campo produtivo, financeiro ou social.
Em outras palavras, elas aprendem que há duas qualidades subjetivas que são cruciais para se fazer valer em nossa tribo: é necessário ser desejável e invejável.
Enfim, esse aprendizado mínimo está solidamente assimilado. Seus corpos, que se tornaram desejantes e desejáveis, poderiam lhes permitir amar, copular e gozar, assim como se reproduzir. Suas forças poderiam assumir qualquer tarefa de trabalho e começar a levá-los na direção de invejáveis sucessos sociais. Ora, logo nesse instante, lhes é comunicado que não está bem na hora ainda.
Em outras palavras, há um sujeito capaz, instruído e treinado por mil caminhos- pela escola, pelos pais, pela mídia- para adotar os ideais da comunidade. Ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e seu espírito estarem prontos, não é reconhecido como adulto. Aprende que, por volta de mais dez anos, ficará sob a tutela dos adultos, preparando-se para o sexo, o amor e o trabalho, sem produzir, ganhar ou amar: ou então produzindo, ganhando e amando, só que marginalmente.
Uma vez transmitidos os valores sociais mais básicos, há um tempo de suspensão entre a chegada à maturação dos corpos e a autorização de realizar os ditos valores. Essa autorização é postergada. E o tempo da suspensão é a adolescência.
Esse fenômeno é novo, quase especificamente contemporâneo. É com a modernidade tardia que essa moratória se instaura, se prolonga e se torna enfim mais uma idade da vida."

Para saber mais: A adolescência - Contardo Calligaris (p.14,15 e 16)
O manejo do jovem infrator: Contribuições da
Psicanálise Winnicottiana

A temática da delinquência juvenil levanta questões difíceis e traz à tona um debate sobre quais as melhores formas de condução e manejo nesses casos. O ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, criado em 1990, além de ter estabelecido medida básicas para a infância e adolescência, ofereceu as diretrizes para o tratamento de jovens infratores. Esse estatuto propõe medidas de ressocialização do adolescente infrator compreendendo a infração a partir de uma falha no processo de socialização, sendo, portanto necessário refazer esse processo, oferecendo condições para este jovem se reintegrar à ordem social vigente com suas normas e valores compartilhhados. Na Psicanálise, a questão da delinquência juvenil recebeu grande contribuição do inglês Donald Woods Winnicott, que se destacou por localizar a delinquência dentro de uma teoria da saúde e do amadurecimento humano. A perspectiva winnicottiana compreende o jovem, que comete um ato infracional, como um indivíduo deprivado, ou seja, que em determinado momento de seu amadurecimento teve retirado, de seu ambiente suficientemente bom, cuidados essenciais na vida familiar, que ainda eram importantes e necessários. O comportamento anti-social seria uma forma de reinvindicar o retorno desse ambiente, experimentado em algum momento de seu amadurecimento. A concepção original de Winnicott traz importantes contribuições para as redes de apoio ao ECA, responsáveis pelo tratamento e condução dos jovens infratores. Winnicott compreende a atitude anti-social como uma expressão vital de esperança de tratamento, portanto, para que ocorra a superação, assim como a prevenção do comportamento delinquente, é importante que este jovem encontre um ambiente capaz de lhe oferecer possibilidades de superação da deprivação, reconquistando a confiança num ambiente suficientemtente bom, que lhe fora retirado em seu amadurecimento.

Palavras-Chave: Ato infracional; Estatuto da Criança e do Adolescente; Psicanálise Winnicottiana.

Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com

A tradução do sexual na adolescência



Alegorias presentes em O Apanhador no campo de centeio e em Crepúsculo


A clínica psicanalítica é profundamente sensível às condições históricas e sociais. Transformações nessas áreas produzem efeitos sobre os sintomas, as formas de organização e subjetividade que vemos na clínica. A clínica de adolescentes expõe de forma clara o impacto dessas mudanças. Os jovens dispõem de recursos distintos e formas de subjetividades singulares em cada época, o que requisita uma prática analítica sintonizada com  o contexto histórico em que estão inseridos. Mas, além de reconhecer os fatores históricos e sociais relativos à subjetividade, cabe á Psicanálise identificar e apontar os elementos próprios á constituição psíquica. Nesse sentido, as contribuições de Jean Laplanche são frutíferas, especialmente sua teoria tradutiva. Para este autor, o corpo do adolescente é palco do encontro entre o instinto sexual da puberdade e a pulsão. Este encontro traz à tona uma série de enigmas que convocam o adolescente para a difícil tarefa de tradução. O objetivo desta monografia é, justamente, lançar um olhar sobre a tarefa de tradução do sexual na adolescência, investigando e apontando os recursos de simbolização disponibilizados aos jovens em dois momentos históricos distintos. A fonte material utilizada foi a literatura jovem nos séculos XX e XXI, representada por dois livros, O Apanhador no campo de centeio e Crepúsculo. A investigação apontou que, apesar de os protagonistas apresentarem diferentes formas de subjetividade e se utilizarem de recursos de simbolização distintos, eles se aproximam justamente por estarem diante de um corpo que é objeto-fonte de pulsão capaz de propor enigmas incessantemente.

Palavras Chave: Adolescência; Psicanálise; Teoria tradutiva.

 Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com
A compreensão da adolescência a partir da teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott


Compreensões sobre a adolescência privilegiam diferentes aspectos como a idade, mudanças e transformações biológicas ou físicas, condutas comportamentais ou até características psicológicas. Alguns conceitos de adolescência tomam, como referência de análise, a vida adulta, considerando, portanto o adolescente como um indivíduo despreparado e imaturo. Apesar de  já vislumbrarmos em Freud algumas idéias sobre a adolescência, não temos uma teorização propriamente dita. A Psicanálise freudiana deu especial atenção à vida adulta e à infância. A teoria psicanalítica sobre a adolescência recebeu importantes contribuições do psicanalista inglês D.W.Winnicott, cuja compreensão se destaca por seu conceito original de saúde. As idéias de Winnicott nos auxiliam a entender a adolescência a partir de suas próprias características, identificando aí as aquisições e os movimentos específicos dessa fase, para que então haja o ingresso, de forma saudável, na vida adulta.

Palavras-chave: Adolescência; psicanálise Winnicottiana; Teoria do Amadurecimento Humano.

Para ter acesso ao texto completo, entre em contato com a autora pelo e-mail: marina.reigado@gmail.com